janeiro 27, 2012

versus

"e assim fez:
foi juntando os versos, antes soltos, numa amálgama mental, liquefeita pela melancolia e escorrida para um recipiente usado, sólido, ainda coerente perante os restantes "utils" de um tempo passado, tornado recente, à força, pela pressão dos acontecimentos;
questões de economia de um processo complexo mandam reter lágrimas e conter emoções, que o ser humano, sendo-o, demonstra fraqueza - na perspectiva de quem nada sabe da vida, e de quem a nada sabe a vida.
textos, em contexto; letras simples, escritas a correr, dizem de um limite complicado, só percebido pela aglutinação dos sentidos, que se querem torpes perante uma mente perspicaz, analítica, lógica, inumana, disfarçando desequilíbrios ancestrais, latentes, a que alguns chamam loucura consentida.
assimetrias rugidas com garra, num plano externo mas pessoal, qual timbre, qual salto de raiva, dito na dor de um momento, tornado década e sentido na surpresa sem memória.
ao silêncio seco da garganta, junta-se o radical corte do estado de letargia, de onde sai uma espécie de um som, profundo, que se tenta juntar à harmoniosa e superior balada de fundo, dita e cantada em encantada torção de alma.
o susto é provocado por esse ensaio de catarse chamado berro, feito grito, alto, lancinante, deitado janela fora, pela noite dentro, que ninguém ouve, nunca, enquanto no ar fica aquela impressão de queimadura intensa, como que ouvida num chiar de estilete em brasa pressionado calma e longamente sobre a alma, como dolo de magoar.
nesse escuro vive o frio do céu estrelado que se deixa ver, aqui, agora, onde o logo é muito pouco diante de um futuro e por isso, já muito nada desse passado.
se o sono vem, traz de mão dada a ilusão da auto-reparação, na interrupção do acordado, tornado descanso.
acordado, esmago-me contra a loucura do recomeço do infernal ciclo, em largas passadas tais, que não há forma possível de acompanhamento de quem assim corre só, comigo.
assim é fácil confundir chuva contínua, com lágrimas persistentes.
amanhã, tem monda."

escrevinhado por "MatosB", lá para as 12:53 AM | E foi dito que: (0) | Calhando, tem mais aqui: (0)

janeiro 20, 2012

Aridez

"As dores da vida coincidem com a memória, enquanto me ocorrem excertos de leituras idas do negríssimo 'De Profundis'.
Foi fácil encontrar as páginas com os significantes, tal foi o impacto.
Suffering is one very long moment. [...]
'The poor are wise, more charitable, more kind, more sensitive than we are.
Those who have much are often greedy; those who have little always share.'
É assim que a custo, se percebe que o sofrimento, a dor antecipada por quem estando, vai partir, significa simplesmente, amor.
A morte é uma fronteira entre nós, conscientes, e os que tomam aquele caminho, porque tem de ser - é da vida. Donde, a morte é um estado certo da vida. A nossa forma ocidentalizada de viver esses momentos, dificulta-nos a ajuda a quem já se encontra nessa encruzilhada. Impede-nos de aceitar a mudança do estado de vida, de dar paz e de ajudar quem tem de ir, a não ter medo nem pena de quem, por hora, fica.
Ficar bem, ajudando a morrer bem. Percebo isto. Por aqui, vive-se assim há muito tempo.
E contudo, não quero imaginar o que isso é, se for o caso de um descendente.
A inversão da chamada 'ordem natural' das coisas, seja por doença, ou por acidente, é o pior de viver. Há certamente quem defenda com facilidade, que prescindia dessa ocorrência para sentir a vida enriquecida em forma de dor.
'There is much more before me.  I have hills far steeper to climb, valleys much darker to pass through.'
Venham de lá esses caminhos, com a coragem de que tudo te corra bem neste nosso luto antecipado.
até porque, pela grande natureza das coisas e do caos nelas, podemos ir primeiro, ou depois, ou pura e simplesmente, não irmos ou não ires, desta vez.
para os crentes, seja o que Deus quiser.
"

escrevinhado por "MatosB", lá para as 10:51 PM | E foi dito que: (0) | Calhando, tem mais aqui: (0)

fonix pa!!