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janeiro 16, 2005
O socialmente correcto
Os mortos e os doentes têm uma tendência natural para aborrecer os outros. Em regra, morrem sempre quando dá menos jeito aos vivos e os doentes adoecem quando é inconveniente, estragando férias e planos de viagem. Mas os mortos são os piores, porque se vão embora e nos deixam cheios de trabalhos.
Ainda se morressem sem ser possível avisar, como num acidente ou isso… mas não!
Insistem em morrer ao fim-de-semana, a horas que não lembra a ninguém, ou pior ainda, durante as férias e em qualquer das formas, sempre sem dizer nada a ninguém, apanhando desprevenidos os familiares e amigos que os não visitam à semanas e não lhes telefonam à meses.
Morrer assim, não se faz!
Estas e outras conclusões retirei-as este fim-de-semana das conversas normais entre os participantes num velório. O velório é um acto de circunstância social estranho, em que cada pessoa que lá chega tenta martirizar ao máximo os familiares do de cujos, relembrando-os em cada chegada, que o morto se finou mesmo e que não há dúvida que é ele mesmo que ali está no caixão.
Parece não se entender que este ritual tem em vista confortar os que estão vivos e tentar perceber de forma genuína se os que ficam, ficam em maus lençóis e de como podem ser ajudados.
Em regra, os usos mais antigos mostram que o respeito para com os mortos se demonstra presencialmente no funeral, seja ele "o enterro" ou seja outra forma de disposição do cadáver.
Voltando ao assunto: típico do velório é aquele vestir de um ar de espanto enquanto se pergunta “foi de doença?”; “Quando foi que o vi a última vez?”; e a melhor, "morreu de quê?"; e há também aquela preocupação de se saber se o morto tem onde morar, perguntando-se se têm mausoléu; fica-se sempre em suspenso, à espera de ouvir dizer em tom de oferta "pode usar o meu...". E então aquela insistência e curiosidade em destapar a cara de quem já não é gente e estando deitado já não dorme, misto aparente de "para um último adeus", "deixa ver como está", "um último adeus", são uma coisa digna de filme negro...
Neste quadro, para além dos filhos, de alguns amigos sinceros e do cônjuge sobrevivo, os familiares mais chegados, mas não necessariamente mais abalados com a partida do ente querido, lá vão agradecendo as sucessivas marretadas que levam com frases do género “foi melhor assim…” e “esperemos que não tenha sofrido”.
E depois, as conversas. Ai, as conversas! Há que passar o tempo! Ou se dizem coisas impensáveis, ou, calados, se cruzam olhares furtivos de quem pensa baixinho que será talvez aquele o melhor momento de se fugir. “Pois, vá, vá…” ouve-se algum familiar dizer enquanto liberta o interlocutor do fardo de ali estar sem nada sentir, em regra a seguir a um murmúrio de desculpação de alguém que apresenta os melhores motivos para se querer ir embora.
À saída, passamos por vultos vestidos de cores negras que contam anedotas em voz baixa entre risos sufocados, relembram a última grande comezaina onde o falecido nem estava, falam dos problemas dos clubes desportivos, ou marcam já outro convívio entre eles que se sabe já que nunca acontecerá.
Pessoalmente, o que mais me custa é ouvir dizer em tom de admiração aos familiares, sempre com ar sério, que o morto, ainda há pouco tempo, estava vivo. Se eu fosse o morto, penso mesmo, que me revoltaria na urna.
Depois, há a “questão do dia seguinte”: o funeral. É mais um conjunto de impedimentos a invocar. Juntam-se as últimas flores em tom de compensação dos que não puderam ir ao velório, com aquelas frases originais e sobretudo sentidas de “eterna saudade” que um empregado qualquer de uma florista escreveu e espera-se que finalmente o pesadelo acabe. Não sei é quem, face às circunstâncias, vive afinal, o pesadelo…
Contudo, tudo foi socialmente correcto.
Façam-me um favor quando chegar a minha vez: lembrem-se de mim enquanto fui vivo, não martirizem os meus, apareçam uns meses depois a ver se a família precisa de algum cuidado ou ajuda concreta e sobretudo, não me enterrem com vista à perpetuação do desgosto e do ritual da tristeza: é melhor mesmo o crematório.
Publicado por MatosB às janeiro 16, 2005 06:54 PM
Comentários
ouve lá! estavas inspirado!
Publicado por: na ta ca às janeiro 17, 2005 11:40 AM
Tonnerre de Brest! Como sabias exactamente o que eu penso sobre este assunto!
A única diferença é que prefiro o novo e lindíssimo cemitério de Carnide ao crematório.
Publicado por: Zé do Teclado às janeiro 22, 2005 01:27 AM