« Dia Mundial do Livro | Entrada | Hoje ía alterar a conjuntura... »

abril 23, 2005

Hazards

Tinha conseguido recuperar quase tudo.
Até o vinho tinha de novo paladar – “o que sabes tu de taninos e das suas consequências no palato...” – sorriam-lhe as memórias, agradecidas pelo simples facto de serem lembradas.
Contradições dos tempos.
À sua volta (não que fosse o centro de alguma coisa, ou sequer de alguém) tudo apontava serenamente para o exteriorizado nervosismo típico do instável ciclo primaveril, que a par da procura de novos odores, reanunciava o despertar da flor e do abandono de gastos sentimentos, como se fosse o tempo disso acontecer.
Ele, não.
Ele, entrou pelo seu pé, calmamente, no seu próprio Outono.
Arrumou definitivamente as últimas quezílias no mais fundo das palavras assinadas, uma forma contemporânea de relembrar e ser lembrado da palavra dada, nos antípodas da “contra-litigância tendencial do documento escrito” como gostavam de lhe lembrar alguns dos novos aprendizes de futuro mestre, com aquele ar sério de quem nem sequer sabe se a frase tinha autor “certo e determinado”.
Confusões civilísticas, penalmente relevantes - o eco de um bom Professor que avisava de braços caídos que não era coisa boa a chegada de qualquer ramo do Direito à vida de uma pessoa.
Ficou assim: preso entre dois mundos, sem ter o melhor de qualquer deles, seguindo o carreiro unidirecional do futuro, curto, mas ainda assim desconhecido quanto ao modo e à duração, enquanto olhava distraidamente as àrvores de folha amarelada que o ladeavam.
Não tinha, sequer, saído do sítio onde estava.
O tempo dizia-lhe que tinham passado apenas sete minutos.

Publicado por MatosB às abril 23, 2005 06:22 PM