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abril 21, 2005
Não há dor que justifique a fuga

A escuridão, as trevas desesperadas, é esse o círculo terrível da vida do dia-a-dia.
Por que é que uma pessoa se levanta de manhã, come, bebe e se deita outra vez?
A criança, o selvagem, o jovem saudável, o animal não padecem sob a rotina deste círculo de coisas e actividades indiferentes.
Aquele a quem os pensamentos não atormentam, alegra-se com o levantar pela manhã e com o comer e o beber, acha que é o suficiente e não quer outra coisa.
Mas quem viu esta naturalidade perder-se, procura no decurso do dia, ansioso e desperto, os momentos da verdadeira vida cujas cintilações o tornam feliz e que apagam a sensação de que o tempo reúne em si todos os pensamentos relativos ao sentido e ao objectivo de tudo. Podem chamar a esses momentos, momentos criadores, porque parece que trazem a sensação de união com o criador, porque se sente tudo como desejado, mesmo que seja obra do acaso. É aquilo a que os místicos chamam união com Deus. Talvez seja a luz muito clara desses momentos que faz parecer tudo tão escuro, talvez a libertadora e maravilhosa leveza desses momentos faça sentir o resto da vida tão pesada, pegajosa e opressiva. Não sei, não aprofundei muito o pensamento e a tirada filosófica. Mas sei que se há bem-aventurança e um paraíso tem de ser uma duração incólume de tais momentos, e se se pode obter esta felicidade pela dor e pela sublimação na dor, não há nenhuma dor que justifique a fuga.
Hermann Hesse, in 'Gertrud' (personagem Kuhn)
Publicado por sutenorio às abril 21, 2005 12:15 PM
Comentários
tudo depende da intensidade da dor, que varia em função de quem sofre, da sua forma de estar na vida (ou querer sair dela) das suas motivações, cultura...
Nietzsche, por outro lado, ...
Publicado por: MatosB às abril 21, 2005 03:43 PM
... admitia a "fuga" no tempo certo e com liberdade.
Partilho desse teu entendimento. Não poderia deixar de haver essa ambiguidade, suportada por uma multiplicidade de factores, quando nos referimos à profunda correlação entre a vida e a morte.
Publicado por: st às abril 21, 2005 05:12 PM