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setembro 29, 2005
Os pézinhos
"O tempo, um dos primeiros dias de Agosto, o espaço, a cidade de granito, mal-amada, onde os meus super-poderes parecem inabaláveis, tal qual a força de Kal-El sob a sol da Terra!
Fui buscá-la por volta das onze da noite; o perfume parecia estar na medida certa; mal ela entrou no carro olhou-me com aqueles olhos grandes e negros e eu rendi-me! Não sei se ela tinha reparado, mas eu já me tinha rendido uns meses antes, fruto de uma meia dúzia de escapadelas a um café, em horário infantil! Não costumava ser “apanhado” com facilidade, mas tudo nela tinha um toque irresistivelmente delicodoce... a voz meiga, a pele escura, os lábios grossos, imensos, definitivamente desaconselhados a diabéticos."
"Arrancámos. Tinha preparado o melhor CD possível como banda sonora da viagem! Tudo teria que ser perfeito. A meio da viagem os cinco sítios que eu tinha escalonado mentalmente desapareceram misteriosamente e então nada mais me restou senão dar uma de homem indeciso e aberto a sugestões!
Não me interpretem mal: eu até sou indeciso….
Ela sugeriu uma ida a Matozas, ou se quiserem, Matosinhos, isto na eventualidade de um “não morcão” se dar ao trabalho de ler isto. O Bar ficava numa casa antiga, mas remodelada, com aqueles nomes da moda que ficam sempre no ouvido, embora neste caso não augurasse nada de especial: "Menos que Zero"!
Mal entramos, o cenário parecia confirmar-se: estava completamente vazio!! Oh não ! Que ca... Que faço eu agora?! Sem ninguém lá dentro iria ser difícil disfarçar os silêncios incómodos, e pior que isso iria tornar muito mais foleiro o uso de lugares-comuns, sempre umas óptimas e eficazes bóias de salvação no mundo do “dating”.
Sentámo-nos, e eu fui buscar duas bebidas pra aquecer…o ambiente e a nós, o que neste caso era a mesma coisa!! Duas vodkas limão pra começar! A música estava boa, pensei eu! Muito boa, corrigi a seguir! Passado uma hora, tava sublime, uma mistura letal de R&B e House vocal! Tudo corria anormalmente bem! Parecia que um clone meu tinha ido passar a musica, outro servia as bebidas e outro impedia os grunhos de entrarem e destruírem o cenário que eu já tinha visto algures entre um sonho e um desejo mais consciente!!
A conversa fluía entre memórias passadas e planos futuros. Eu cada vez mais me sentia atraído pela Mariana, sobretudo quando ela me confidenciou que sempre gostou de mim, mas infelizmente (pra mim) nunca tinha podido explorar o sentimento! Malditos namoros acomodados que se arrastam anos e anos, cuja única lógica fundamentante acaba por ser o próprio facto de existirem, numa dinâmica autofágica. Ainda apor cima o tipo era muito mais velho que ela, era feio e aparentemente chato como o caraças, pelo menos era o que eu pensava dele e sempre pensarei, nem que ele venha a descobrir a cura contra a sida ou uma forma de internar o Dias da Cunha.
Quando chegámos à fase da conversa em que os “ses” já enjoavam, tínhamos deitado abaixo pelos menos quatro vodkas, cada um…sim! Porque as mulheres com que eu saio são fortes e bebem como o caraças, apesar de não se candidatarem ao exército ou a outras forças de segurança.
Ao quinto vodka, os meus olhos tinham definitivamente estacionado nos dela e o meu cérebro tinha abandonado o crânio, nem sequer deixando os piscas ligados! As palavras já não importavam, cada vez tinha menos dúvidas que era na boca dela que eu queria acabar a noite!! Ela pensava o mesmo, dizia o meu ego ultra-inflamado! Então eis que surge a melhor letra de toda a noite:
- Sabes o que me apetecia?
- Não! Diz?...
…
- Ir molhar os pézinhos!
Meu Deus! A mulher além de linda e doce também lia mentes!
Estava eufórico, quase histérico, embora os meus músculos faciais tentassem demonstrar a maior naturalidade do mundo perante tal sugestão! Sim! Porque já não ando aqui há dois dias, apesar de naquela altura me sentir um puto na primeira visita ao “TOYS R US”.
Entrei no carro, e mesmo com a embriaguez técnica, consegui conduzir com classe, o que na minha terra significa uma mão no volante e outra na manete das velocidades. A banda sonora fazia agora muito mais sentido e o ar feliz e relaxado da miúda faziam esperar o melhor! Alguns minutos pra escolher a praia com menos “freaks” e com menos possibilidades de assalto. Saímos e fomos até junto da água, e ela num assomo de literalidade que me devia ter servido de premonição, descalçou-se e molhou os pés nas águas frias de Leça. Conversámos um pouco, trocámos experiências balneares mais ou menos traumatizantes e por fim regressamos ao carro.
O meu lado de D. Juan suburbano impeliu-me a lançar o repto:
- Vamos prá parte de trás do carro que se está mais à vontade?
Isto só pode ser uma piada, alegará quem conhece o meu carro amarelo, de 87 que os meus amigos apelidaram carinhosamente de “AXIT”.
Ela concordou e lá saltamos para o banco de trás! Mudei o CD pra uma coisa mais calminha, mais melosa e tentei o que pareciam ser favas contadas. Puxei do meu lado carinhoso (que aparece mais ou menos com a mesma frequência do cometa Haley) e dei o máximo que o álcool e o espaço me permitiam.
Surpresa das surpresas! A rapariga parecia não estar muito disposta a grandes convívios, contrariando quase ilegalmente tudo o que tinha prometido até então! Senti-me enganado como um adepto do Benfica que comprou um Kit de Sócio, quando descobre que aquilo só serve como pisa-papéis ou pra guardar recibos antigos. Naturalmente não desisti à primeira, que a gasolina tá cara e vodka também ainda não é de borla. Esbarrei uma e outra vez na intransigência corporal da moçoila, que se recusou a avançar uma explicação pra tal mudança de comportamento.
Foi então que um pensamento aterrador irrompeu violentamente na minha etílicamente diminuída “cognitio”. Será que ela queria mesmo (e só) molhar a porra dos pés!?! Não me lixem!!! Não pode ser… ninguém pode ser tão denotativo ao fim de cinco vodkas?! Até hoje a dúvida ainda não se desfez!...
Encontrei-me com a Mariana algumas vezes desde então, numa cadência mais ou menos regular, como se quiséssemos ter a certeza que ambos ainda existíamos e que aquela noite tinha sido real…Curiosamente quando tentei voltar ao local do crime, o bar em Matosinhos tinha fechado sem deixar referências e ninguém meu conhecido tinha alguma vez ouvido falar do Menos que Zero, numa casa remodelada em Matosinhos.
A minha relação com a Mariana nunca mais conheceu progressos de monta, apesar de algumas tímidas tentativas, de parte a parte, aproveitando os nossos períodos de maior desacompanhamento emocional.
Há dias via-a, apressei o passo para a abraçar e abrandei ao esbarrar no seu olhar doce, apontado prá sua agora proeminente barriguinha.
- Tou de sete meses, Zé! E são Gémeos.
Eu não sou grande coisa em palavras de circunstância” mas desta vez fiz um esforço:
- Parabéns, Mariana!
De repente tudo o que lhe poderia dizer pareceu-me terrivelmente inadequado, por isso calei-me!!
Ela deu mais alguns pormenores sobre a gravidez e sobre a casa que tinha comprado, etc, etc… Prolonguei artificialmente o sorriso o máximo de tempo que pude e despedi-me com desejos de felicidade. É de mais!! Ali duas vidas prestes a nascer e eu só conseguia pensar na morte da minha relação com a Mariana. Como se tudo agora fosse irreversível e a terra deixasse de ser redonda! Nem o meu lado mais depravado é agora capaz de exigir que eu lhe volte a ligar... não dá!! Parece ser um ciclo que se fecha, que no nosso caso nunca o foi bem, antes duas paralelas que volta e meia se cruzavam, unidos por algo que nunca soubemos qualificar, mas que sabíamos ser especial, se calhar especial de mais para caber numa relação."
O vosso
(the) boy_next_door
Publicado por MatosB às setembro 29, 2005 12:32 PM