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janeiro 19, 2007
vidas - 2

Sala vazia. Som roufenho de um rádio (balada americana dos anos 70-80) acompanha sem ritmo os sons familiares que chegam da cozinha. Cortinas brancas, rendadas. Iluminação fraca, amarelada. Mobiliário envelhecido. Toalhas em pano aos quadradinhos e guardanapos lisos ou axadrezados, a condizer. Garrafas de vidro branco e com fundo muito grosso, sujas. Obrigado por ter vindo. Obrigado por ter escolhido. Obrigado por ter “degustado”. Obrigado por ter gostado. Obrigado por pagar. Contrasta sempre com o “au revoir”, que apesar de simpático tem qualquer coisa de definitivo e que ainda por cima me soa a “adeus e vai-te embora”.
O frio lá fora choca com a simpatia declarada de quem passa em sentido contrário.
Cresce uma ponta de inveja à medida que observo os "locais" a deslocarem-se para os seus destinos, sem pressas, a pé ou em bicicletas comunais.
Embrenho-me naquelas vielas mal iluminadas, enquanto passo por restaurantes à minha direita e à minha esquerda em concorrência nos sabores e na apresentação das salas, já que os preços dos menus são muito semelhantes. Como se fosse mosquito, sou atraído pela luz laranja e aproveito o calor que chega dos enormes aquecedores a gás, verticais e de chapéu metálico, que denotam uso intensivo. No silêncio das minhas memórias, dou pelo som e pelo cheiro que emanam.

Passo pelo último bistrot que tinha frequentado há mais de seis anos atrás, ali, na Rue Mércier. Olho e vejo-nos aos dois - nós e a tal gia. Entro no estabelecimento concorrente e fico-me pelo bar. Tenho curiosidade em ver quem pede um Porto. Era um japonês. São doidos por Porto; mesmo perdidos num deserto, preferem-no a água. A jovem empregada do restaurante tem seguramente menos vinte anos que eu. Tem uma voz pausada, meia rouca. É baixa, loura, olho verde, formas redondas e está parcialmente despida, ou vestida, já que o vestido longo e escuro é aberto de lado, com atilhos que o fecham, mas apenas o suficiente para deixar perceber a longa tatuagem que lhe serpenteia todo o flanco direito, até ao tornozelo. Todos os clientes (independentemente do sexo) estão atentos quando sai detrás do balcão para servir. Uma mesa de dois castiços (italianos) tem umas seis canecas de cerveja bebidas e uma dezena ou mais delas por beber. Repetiram o pedido umas poucas de vezes. E continuam a fazê-lo. De cada vez que ela chega à mesa, faz o mesmo sorriso, apresenta-lhes a conta dizendo o preço em voz alta enquanto um deles olha descaradamente de lado para a tatuagem. Quando ela se afasta, o mirone desenha mais um pouco do que viu e discute com o amigo. A sala enche-se com um “oh” dos italianos quando a jovem beija a amiga sentada ao balcão, com aparente paixão. A sorrir com gosto perante a inusitada cena, termino a cerveja preta e saio. Não sendo irlandesa, era boa. Só depois dou conta de que não li o rótulo… só sei que era vermelho. Já tinha visto o desenho daquela serpente noutro país; só não era no corpo duma jovem.
Amanhã, quinta, é o último dia aqui.
Publicado por MatosB às janeiro 19, 2007 12:57 AM
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