« feitiços duradouros | Entrada | Saldos e reduções: não se deixe enganar! »
fevereiro 18, 2007
amar demais hoje - actualidade de textos antigos
“Amantes, são os que amam.
Mais do que uma definição de dicionário, muito menos que uma citação, a frase é uma constatação da realidade. Há quem ame demais; há quem se recuse a amar; há quem não saiba o que é amar; há quem não ame; há quem não saiba manter-se no amor. “Amar demais” (Rita Matos) é um bom texto, porque é cru, simples e verdadeiro. É a realidade da vida, de um modo de vida que se não quer para sempre, mas que acontece, sem subterfúgios, sem (falsas) moralidades; amar de mais vem rápido e sem pré-aviso; como uma pancada.
Amar demais, é viver o sentimento que traz consigo a culpa e a ambiguidade da opção, quando não se quer magoar outro, ou outros.
Se tudo na vida tem um sentido ou uma razão de ser, amar demais custa a compreender e mesmo a aceitar, porque é bem mais do que uma relação. E contudo, amar de mais não é, nunca, uma obsessão. É uma razão de viver, uma estrela cadente que brilha com um fulgor tal, que conforma a vida ao momento em que se está, espartilhada por angústias. Quando cai a estrela, mantem-se o brilho no nosso centro. Um brilho que encandeia mais ou menos tempo no campo visual de cada interveniente do caso, conforme a angústia da separação com que se vive o sentimento, ou o receio de ser tão bom o que se tem, que pode não pode ser verdade, que deve ser um erro. Surge a desconfiança do que é simples.
Amar demais trás consigo o medo. O medo de entrega e o medo de se receber. O medo de se magoar e o medo de se ter de optar. O medo de viver o que manda um sentimento, pessoal, individual, não conforme às regras - viver um raio de luz.
Quando se ama demais, não há famílias, nem ex-famílias, nem ex-filhos ou filhos; há apenas deveres secundários que subjazem à intensidade da vida e que nos gritam por ajuda.
Amar demais trás às cavalitas o sofrimento antecipado de se querer o outro a toda a hora, fora de construções de família, de ideia de família, de modelos de vida. Amar demais é amar sempre, tê-lo presente, em todos os momentos, especialmente quando se não está, sem necessidade de confirmação diária, ritual.
Um dia, acordei e ouvi dizer de alguém ao meu lado, em jeito de bom dia, que estava psicologicamente preparada para um grande desgosto de amor. A visão pragmática de quem se sentia incompleta em termos de futuro, agredia a partilha desse momento, violando as regras da constância de vida e da projecção do amor, transportando a tristeza da decisão que havia de ser só sua, para o presente.
Continuo a acreditar que os problemas de expressão, são a principal razão de se negar a existência do amor, porque amar demais é sobretudo viver, e não qualquer coisa passível de explicação, de definição, de enquadramento, de expressão pela palavra. É um “está cá e é assim”. Por isso os poetas escrevem tanto sobre ele, sem conseguirem uma definição; em vez da sorte-grande, fica uma poética aproximação.
Quando se ama demais vive-se em primeira linha em relação a tudo o mais, que de uma forma natural se torna secundário, respeitando apenas a dor dos que o não têm, não conseguem, ou perdem.
A única coisa (ainda por cima artificial) que condiciona o amor, é o tempo, não porque corra e delimite, mas porque trás consigo os deveres, muitas vezes transformados em empecilhos, demoras, obstáculos, constrangimentos.
E por isso que não gosto do dias dos namorados – uma ideia diferente de um carnaval cristão, gozo de um Cristo em sofrimento - gozo de quem não tem a quem amar demais, dever de se lembrar de um dia que devia ser uma vida inteira em vez de um momento.
Amar demais é um exercício de vida, real, praticado no dia a dia, de negação da ideia de diferenças e de incompatibilidades. Amar demais não é “ter o outro”; é vivê-lo. É um "totus tuos" sem necessidade de afirmação de fé.
É por isso que quando se ama demais, dói tanto deixar de o ter: perdem-se as referências e a vontade de exercer a vida. Fica-se longe de tudo e despido de se querer, ou mesmo de se procurar outro; não é medo de se sofrer de novo; é ficar-se vazio, sem nada, mesmo tendo muito. Sente-se um lento asfixiar, consciente, incontornável. Passem as horas, dias ou anos, sente-se o afogamento do ser num mar de lágrimas interno, sublimado num nada.
E é também por isso que mais nenhuma outra forma de gostar o compensa, o substitui ou o aplaca, porque nenhum amor é demais, ou “mais do que” amar demais.
Amar demais é apenas uma forma, um superlativo do amar.
Só isso.
Nunca te amei demais.
Amo-te.
Só isso."
Publicado por MatosB às fevereiro 18, 2007 05:27 PM
Trackback pings
TrackBack URL para esta entrada:
http://atuleirus.weblog.com.pt/privado/mt-tb.cgi/152265
Comentários
bom R... uma das melhores coisas que li sobre o amor!
Publicado por: Zed às fevereiro 18, 2007 08:57 PM
8-)
e quem recebe esta declaração? encontraste finalmente o caminho?
Publicado por: habitantedopantano às fevereiro 19, 2007 12:25 AM
eu sei que vou te amar
por toda a minha vida eu vou te amar
e cada despedida eu vou te amar
desesperadamente eu sei que vou te amar
e cada verso meu será pra te dizer
que eu sei que vou te amar por toda a minha vida
eu sei que vou chorar a cada ausencia tua eu vou chorar
mas cada volta tua há de apagar
o que essa tua ausencia tua me causou
eu sei que vou sofrer
a eterna desventura de viver
a espera de viver ao lado teu
por toda a minha vida
(Vinicius)
Publicado por: Maria às fevereiro 20, 2007 08:20 PM
as vezes, o mais importante nao e' encontrar o caminho, mas sim, saber quais nao devem ser percorridos para nao se magoar a si proprio magoando os outros.
Publicado por: memyselftheje às fevereiro 21, 2007 01:48 PM
vc tem quer muda isso esta te matando vc não ver boba e ele não esta nem aí
Publicado por: laydiane às fevereiro 28, 2007 03:40 PM
Ai!é, então t´aí tiazinha! Num ti mete cara.
Publicado por: ????? às março 1, 2007 09:13 PM