« eLUZtrace | Entrada | A Primavera chega no Dia Mundial da Poesia »

março 20, 2007

in memoria

Olha António... não sei o que te diga, agora que já nada te posso dizer.
É sempre assim, quando se morre: ficam por dizer as frases mais engraçadas e só restam as lembranças.
Podias ter avisado; sempre se fazia o tal almoço, o tal cozido de carnes magras para não te dar cabo desse coração; que até tinhas. E eu não chegava assim, em cima da hora, sem sequer uma flor.
Nem tive aquela oportunidade de te contar o que se passava comigo - por acaso, não sabia que te tinhas ido embora enquanto o dia, ontem, me começava a correr mal. Nem tivemos aquele tempo para falar das tendências de crime - tu "gramavas à brava" o assunto.

É sempre a mesma coisa, António. Foi o que dissemos uns para os outros: para o que ite interessa, só lá estávamos nós, os da classe operária, os das imensas noites perdidas, debatidas e... batidas, dos pés gelados enquanto esperávamos os nossos clientes. Lá contei a história dos dois putos, pela milésima vez. E recordo a tua forma atrevida e brincalhona como empandeiravas as contas dos almoços de fim de trabalho bem sucedido para os pares americanos, com o teu bigode farfalhudo a esconder a tua pronúncia característica a dizer "check please!", enquanto empurravas a dolorosa com o dedito pequeno e gordo...

Não te pude ver, pá; para já, porque estavas confinado a um espaço curto e fechado; e depois, porque estava muita gente. Mas deixa lá! Hão-de haver mais oportunidades!
Lá estivemos, os estarolas; ficamos a olhar os três, uns para os outros, a pensar baixinho "quem é o próximo". O Teixeira ainda brincou: "o mais velho, sou eu...". Não leves a mal, mas achei melhor não comentar: não sou eu o mais novo...
Mas, pensando em ti, bebo um copo em tua memória, sózinho, é certo, mas recordando a companhia que fizeste à malta e o que fizeste de bem pelos que representavas e pelos que se te queixavam. Tinhas esse defeito enorme, de ser um homem honesto num "mundo em mudança".
Em resumo António: gostei imenso de te conhecer e de trabalhar contigo. Calhando, diverte-te porque a vida é uma merda - mesmo quando dizias que "só querias era viver".
Saúde e Vida!
Vida e Honra!
Honra e verdade!

À tua, António Fonseca, meu amigo. Contigo, vai tanta história!
Tenho imensa pena que nos tenhas deixado.
Olha... toma lá o abraço que jamais te voltarei a dar.

Publicado por MatosB às março 20, 2007 07:28 PM

Trackback pings

TrackBack URL para esta entrada:
http://atuleirus.weblog.com.pt/privado/mt-tb.cgi/153822

Comentários

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)