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outubro 10, 2009

o poder do medo

"medo.
inquietação severa da alma que induz uma intensa sensação de desconforto e sobretudo, de insegurança.
o medo pode acontecer perante um facto, um acto, uma necessidade de escolha, ou perante a omissão de tudo isto - o medo pode acontecer por factores exógenos ou por outros, próprios ou específicos do ser que o sente, intimamente, internamente.
muitas vezes, ao medo associa-se a dor, como consequência ou factor secundário.
é por isso que o medo é entendido como estado da alma por uns, como insuportável para outros, e uma desestabilização para todos: o medo afecta diferentemente; e porque o medo é humano, torna-se tão diferençável conforme o número de pessoas. é tão abundante como o número dos que o vivem; é qualitativamente e quantitativamente diferente de pessoa para pessoa.
esta última, explica o facto de existirem pessoas adversas ao risco - mudam pouco, apostam pouco, arriscam pouco - ou demoram a decisão de arriscar.
mas há quem, dentro do género, racionalize o medo de origem interna. conheço muito poucos assim, mas conheço, pelo menos três, cuja racionalização do medo o transforma em contenção do ser, ou ser-se assim.
e porque se há-de racionalizar o medo desta forma? por "amor ao próximo", em que a proximidade seja a de um familiar, ou de um amigo querido, a de alguém que nos seja querido, mas a quem não se quer magoar, ou imputar o sofrimento próprio.
donde, em regra, este tipo de racionalização é mal vista e malquista, precisamente pelos destinatários da racionalização do medo, aqueles que pretendíamos proteger das consequências, ou do motivo do nosso medo.
as consequências desta opção de vida, que diria de estóica, são invariavelmente as mesmas: acaba por se magoar na mesma, ainda que menos, porque o destinatário da intenção de se poupar o sofrimento pela racionalização do medo, não compreende a bondade e a pureza deste tipo de exercício de vida: ter medo de causar dor, fá-lo sofrer só a antecipação dela e arrisca-se a que a dor seja imaginária.
sem todos os dados ao seu alcance, mesmo que bem formado e verdadeiramente amigo, o destinatário deixa-se invadir pela mágoa e decide em conformidade, em regra, não diria mal, mas seguramente contra o o estóico.
o medo aparece assim, como catalisador e/ou como factor de ofuscação das decisões que se tomam, por muito bondosas que o sejam. pode até, servir para empurrar de mansinho o seu portador para a decisão mais fácil, ou a via de vida possível em face das circunstâncias, mas nem por isso mais acertada.
se a vida fosse feita de opções, o medo ou a dor dele poderiam ser uma das variáveis da função felicidade, uma adaptação dos ensinamentos de Alegre Donário que mais sentido faz na explicação utilitarista da separação amorosa: tendencialmente, mesmo que se ame, se as variáveis negativas são demasiadas, pode dar-se a ruptura.
isto faz mais sentido, quando lemos Eduardo Punset, para quem se pode medir o medo: há e sofre-se mais medo, conforme diminui a felicidade. Para ele, é o medo, o medo de viver, o medo de arriscar, o medo de ser, que rouba a felicidade.
a coincidência com a visão utilitarista que antecede não é perfeita, já que o medo, como variável de uma função, poderia, segundo esta visão, ter mais peso que outras variáveis, uma espécie de voto qualitativamente mais negativo.
seja como for, o medo é seguramente um inibidor, um castrador da franqueza na amizade, um cancro das relações amorosas, um libertador de um dos diabos mais poderosos do inferno: a dúvida. provoca a distorção das relações simples e descomplicadas. e fere de morte as relações humanas.
a final e afinal, o que resta? o medo, a dor, ou a dúvida da decisão?
para mim, resta um "ser-se assim", mas com muito carinho, amor e amizade.
"

in "Urban Idades", ed. Personna, 2009;

Publicado por MatosB às outubro 10, 2009 12:02 AM

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